quinta-feira, 1 de outubro de 2020

NA ACTUAL PANDEMIA OS HOSPITAIS PEDIATRICOS EUROPEUS REAFIRMARAM-SE COMO INSTITUIÇÕES DIFERENCIADAS IMPRESCINDIVEIS NOS SISTEMAS DE SAUDE . A CRIAÇÃO DA ECHO ( EUROPEAN CHILDREN´'HOSPITALS ORGANIZATION) E UMA INICIATIVA QUE TODOS HOSPITAIS E SERVIÇOS PEDIATRICOS PORTUGUES DEVEM ADERIR E APOIAR


 


https://www.echohospitals.org/


ECHO (European Children's Hospitals Organisation)

 

Who we are. Our mission: ECHO advocates for children's health and their access to the best quality care through the collaborative work of children's hospitals.

 

 

A importância de garantir o  direito das crianças a uma assistência  hospitalar  de qualidade  durante a epidemia  COVID-19

 

Os hospitais pediátricos foram criados  com o objectivo de defenderam e garantirem  os direitos das crianças a cuidados de saúde  diferenciados  e  adaptados as suas necessidade psico fisiológicas .

 

Neste momento critico  A defesa deste  direito  torna-se   crucial pois  trata-se de   garantir que as  crianças sejam protegidas  durante todas as fases da pandemia COVID-19.

 

A European Children’s Hospitals Organisation (ECHO) é uma nova organização que representa os principais hospitais pediátricos de  toda a Europa, muitos dos quais ajudaram a liderar a resposta COVID-19  local e  regionalmente.

 

Os Hospitais pediátricos que são  membros  da ECHO e os  responsáveis pelo  diagnostico e o tratamento  das  doenças pediátricas  agudas e cronicas responsabilizando-se  pelo seguimento de um conjunto de  pacientes que se caracterizam por serem  os mais  complexos e vulneráveis ​​de toda a  sociedade.

 

A nossa missão é fazer  valer nossa voz coletiva de  apoio aos  hospitais pediátricos  solicitando que os   sistemas de saúde pública garantam que os direitos das crianças sejam considerados prioritários  no “novo normal “ do COVID-19.

 

De acordo com a OMS, a pandemia COVID-19 é “uma grande onda com varias replicas ” e os sistemas de saúde devem estar prontos para surtos recorrentes, seja  qual  for  a  estação do ano.

 

Em contraponto  a imprevisibilidade do surto atual de  Covid 19,  os outros vírus respiratórios são sazonais, preenchendo de forma previsível  os leitos disponíveis  de unidades de cuidados intensivos (UTI)  que de adultos quer infantis  dos diversos  hospitais.

 

Com a diminuição da taxa de vacinação devido a pandemia. compreende-se o temor   de que um  aumento de casos  nas doenças evitáveis ​​pela vacinação venham a complicar ainda mais a  capacidade de atendimento  nos hospitais no inverno que se advinha

 

Para além destas preocupações, acresce uma outra  adicional devido a  reabertura de escolas e consequentemente a existência de uma maior numero de Pais voltando ao trabalho agravando o  o perigo de aumento do número de casos COVID-19 , cujas taxas de infeção permanecem desconhecidas.

 

Dada a possibilidade de um aumento futuro de casos de COVID-19 e o aumento previsível de doenças sazonais, a preparação previa dos Hospitais e Serviços  para esta eventualidade é  fundamental de forma a  garantir a segurança de crianças e jovens.

 

Embora poucas crianças tenham exigido internamento hospitalar por causa do COVID-19, o isolamento social, o encerramento de escolas, o atraso  ou desmarcação de consultas,   o aumento do estresse familiar e o enfraquecimento das estruturas de retaguarda  do Estado repercutem-se negativamente sobre a saúde infantil.

 

Com sistemas de saúde orientados quase exclusivamente ao  atendimento de adultos indagamos aos poderes públicos se  como sociedade, não  estaremos   a descurar  a proteção   adequada do direito das crianças à saúde durante a pandemia.

 

Durante a pandemia  o atendimento nos serviços pediátricos quer dos  hospitais generalistas  quer dos terciários diferenciados como por exemplo os de transplante de órgãos de quimioterapia ou reabilitação foram comprometidos.

 

Nove em cada dez pacientes com doenças raras   dizem  que os  seus cuidados foram interrompidos ou prejudicados.

 

 Os hospitais pediátricos   são os principais prestadores de cuidados médicos complexos e altamente especializados em crianças internadas ou em ambulatório, incluindo as doenças raras.

 

Preservar a qualquer custo os hospitais infantis é essencial para garantir que crianças e jovens tenham acesso as consultas que necessitam  em tempo útil, especialmente aqueles que requerem cuidados especializados ou complexos.

 

 A telemedicina é apenas parte da solução, e os profissionais de saúde e a capacidade de atendimento  dos pacientes necessitam de recursos  presencias e adicionais.

 

Durante a pandemia, muitos hospitais infantis aumentaram exponencialmente sua capacidade em  telemedicina. Consideramos, contudo, que esta ampliação deve saber equilibrar os benefícios de maior acessibilidade sem comprometer a qualidade, e o agravamento de condições sociais e de saúde deficientes.

 

 Manter as crianças saudáveis ​​é indissociável de as comunidades em que habitam serem também  saudáveis.

 

Uma característica marcante da pandemia COVID-19 foi a necessidade de aumentar rapidamente o número de leitos de UTI para adultos.

Em varias circusntancias os   hospitais pediátricos  contribuíram de várias maneiras, incluindo a transferência de equipe temporariamente para UTI de adultos, consolidando o atendimento pediátrico e em casos extremos cuidando de adultos em unidades pediátricas.

 

Circunscrever o atendimento pediátrico a áreas físicas e geográficas especificas (Hospitais Pediátricos por exemplo) para alem de aumentar o espaço destinado ao atendimento de adultos, igualmente reduz a necessidade de crianças e famílias frequentarem áreas com alto risco potencial de contaminação, como as salas de espera de hospitais generalistas em que existe mistura entre crianças e adultos

 

Tal abordagem envia uma mensagem à comunidade de que os hospitais pediátricos são seguros e prontos para cuidar dos pacientes.

 

Numa perspetiva de futuro, os hospitais pediátricos devem trabalhar em colaboração com os serviços de saúde primários criando estratégias comuns em benefício da saúde pública.

 

Com o aumento sazonal das doenças respiratórias, as UTIs pediátricas poderão  atingir a  sua capacidade máxima. Garantir o direito da criança a cuidados de saúde de alta qualidade exigirá experiência profissional e recursos suficientes disponíveis, como ventiladores ou equipamentos de monitorização.  Isso pode representar um desafio  uma vez que a disponibilidade de equipamentos dedicados para pediatria é limitada  e estas devido a  sua  menor representação estatística  merecem menor atenção dos organismos competentes 

 

 Os testes de identificação rápida de casos positivos de COVID-19 irá agilizar o tratamento e ajudar na gestão de recursos, como por exemplo na distribuição de  equipamentos de proteção individual.

 

Os sistemas informáticos de gestão em  saúde   para alem  de ajudar a rastrear e gerenciar  informações  como disponibilidade de leitos e  cuidados intensivos permitem racionalizar às necessidades e utilização de recursos limitados.

 

 

A criação de  sistemas de compartilhamento de informação e de dados numa perspectiva  transfronteiriça é  importante para compreender e atuar rapidamente as características clínicas e epidemiológicas dos surtos e implementar políticas comuns de prevenção e tratamento.

 

 Politicas de formação inter hospitalares  levaram  ampliação de oportunidades educacionais com troca de conhecimentos entre as diversas  equipes também irá garantir que os hospitais pediátricos estejam preparados  para um aumento repentino de pacientes em estado crítico.

 

A pandemia causou  em alguns serviços de urgência uma diminuição   no  atendimento  em alguns  serviços de urgência  pediátricos  , com eventuais  sequelas graves e duradouras  em algumas crianças.

 

Esta fuga  aos  Hospitais e serviços de  urgência  teve origem no receio   dos pais  ao  risco de contaminação, ou  ao  internamento  e separação dos seus filhos.

 

Estes acontecimentos  obrigam  a necessidade de melhorar e  desenvolver estratégias de comunicação com as populações esclarecendosobre quando  se deve recorrer a cuidados médicos hospitalares e garantindo  que todas as crianças no caso de internamento  terão o direito ao acompanhamento de um  dos pais ou do responsável de educação. 

 

As estratégias  para minorar o risco de infecção covid 19  em meio   hospitalar inclui a  obrigatoriedade de separação de circuitos e  criação de barreiras físicas entre as  áreas de atendimento geral e as de  triagem  e internamento covid 19.

Deve existir informação publica que descreva de forma  detalhada as ações que os hospitais estão a implementar.

 

 

 

Os Hospitais pediátricos são a referencia e as pricipais   âncoras de atendimento das crianças  em nossas comunidades.

São  eles  a quem  cabe   a  responsabilidade moral de garantir

que os direitos das crianças sejam protegidos e promovidos

no planejamento de resposta à pandemia. Esta orientação  se aplica não só

à resposta COVID-19, mas também ao planejamento para a eventualidade de

futuras pandemias.

 

Concluímos alertando  que os Hospitais Pediátricos, Sistemas de Saúde, e os responsáveis pelas políticas de saúde devem agir de imediato para garantir que os direitos das crianças e dos jovens estejam no centro das suas atenções envidando todos os esforços de planejamento da resposta dos surtos pandémicos atuais e futuros.

 

 

Declaramos não existirem   conflito de interesses

 

 

*Jennifer McIntosh, Montserrat Esquerda Aresté, Joe Brierley, Cristina Giugni, Kathleen S McGreevy, Francisco José Cambra, Dick Tibboel, Ruben Diaz, Alberto Zanobini, on behalf of the European Children’s Hospitals Organisation jmcintosh@sjdhospitalbarcelona.org European Children’s Hospitals Organisation, Barcelona, Spain (JM, RD, AZ); Paediatric Intensive Care Unit (FJC), and International Department (RD, JM), Sant Joan de Déu Barcelona Children’s Hospital, Barcelona, Spain; Borja Bioethics Institute-URL, Barcelona, Spain (FJC, MEA); Paediatric Bioethics Centre, Great Ormond Street Hospital, London, UK (JB); Department of Paediatric Surgery, Erasmus University Medical Center, Rotterdam, Netherlands (DT); and Paediatric Intensive Care Unit (CG), and Office of International Relations and the Promotion of Innovation (KSM), Meyer Children’s Hospital, Florence, Italy (AZ) 1 Santoli JM, Lindley MC, DeSilva MB, et al. Effects of the COVID-19 pandemic on routine pediatric vaccine ordering and administration — United States, 2020. MMWR Morb Mortal Wkly Rep 2020; 69: 591–93. 2 KidsRights. Kids Rights Index 2020: ‘Children’s Rights Globally Under Pressure Due to Corona Crisis’. 2020. https://kidsrights.org/news/childrensrights-globally-under-pressure-due-to-corona-crisis/ (accessed Aug 26, 2020). 3 EURORDIS Rare Disease Europe. EURORDIS Rare Barometer survey on COVID-19. 9 in 10 people living with a rare disease experiencing interruption in care because of COVID-19. 2020. http://download2. eurordis.org/documents/pdf/PressRelease_COVID19surveyresults.pdf (accessed Aug 26, 2020). 4 Marcin JP, Rimsza ME, Moskowitz WB. The use of telemedicine to address access and physician workforce shortages. Pediatrics 2015; 136: 202–09. 5 Barney A, Buckelew S, Mesheriakova V, Raymond-Flesch M. The COVID-19 pandemic and rapid implementation of adolescent and young adult telemedicine: challenges and opportunities for innovation. J Adolesc Health 2020; 67: 164–71. 6 Tallaght University Hospital. CHI advise of temporary relocation of acute paediatric services at CHI at Tallaght. 2020. https://www.tuh.ie/ News/%C2%A0CHI-advise-of-temporary-relocation-of-acute-paediatricservices-at-CHI-at-Tallaght.html (accessed Aug 26, 2020). 7 Assistance Publique–Hôpitaux de Paris’ response to the COVID-19 pandemic. Lancet 2020; 395: 1760–61. 8 Lazzerini M, Barbi E, Apicella A, Marchetti F, Cardinale F, Trobia G. Delayed access or provision of care in Italy resulting from fear of COVID-19. Lancet Child Adolesc Health 2020; 4: e10–11. 9 Thornton J. Covid-19: A&E visits in England fall by 25% in week after lockdown. BMJ 2020; 369: m1401. 10 Wong LE, Hawkins JE, Langness S, Murrell KL, Iris P, Amanda S. Where are all the patients? Addressing covid-19 fear to encourage sick patients to seek emergency care. NEJM Catal 2020; published online May 14. DOI: 10.1056/ CAT.20.0193

 

 

 Nota: tradução adaptada do texto original em anexo de responsabilidade exclusiva  de Pedro Paulo Mendes

 

TEXTO ORIGINAL :

Safeguarding children’s right to health in hospital during COVID-19 Children’s hospitals have long been advocates of a rights-based approach to health care and will be crucial for ensuring that the rights of children are protected during future COVID-19 surges. The European Children’s Hospitals Organisation (ECHO) is a new organisation representing leading paediatric hospitals across Europe, many of which helped to lead the COVID-19 response locally or regionally. ECHO members provide acute and long-term disease management, caring for some of the most complex and vulnerable patients in society. Using our collective voice, we call on children’s hospitals and public health systems to ensure that the rights of children are central in the new normal of COVID-19. According to WHO, the COVID-19 pandemic is “one big wave”, and health systems should be ready for recurrent surges in cases, regardless of the season. However, other respiratory viruses are seasonal, predictably filling adult and paediatric intensive care unit (ICU) beds. With falling vaccination uptake further exacerbated by the pandemic, fear has grown that an increase in vaccine-preventable diseases could complicate the situation in hospitals this winter.1 Additionally, how the reopening of schools and more parents heading back to work will affect COVID-19 infection rates remains unknown. Given the possibility of a future surge in COVID-19 cases and the predictable increase in seasonal illness, preparation is imperative to ensure the safety of children and young people. Although few children required admission to hospital because of COVID-19, social isolation, school closures, missed or delayed medical care, increased family stress, and the loss of state safeguarding structures have all taken their toll on child health. With the nearly exclusive focus on adult care, the argument could be made that as a society we did not adequately protect children’s right to health during the pandemic.2 During the pandemic, general and complex paediatric services such as organ transplantation, chemotherapy, or rehabilitation were discontinued or limited. Nine of ten patients with rare diseases said their care had been interrupted.3 Children’s hospitals are the primary providers of highly specialised complex inpatient and outpatient medical care, including for rare diseases. Maintaining safe access to children’s hospitals will be essential to ensuring that children and young people have consistent and timely access to the care they need, especially for those requiring specialised or complex care. Telemedicine is part of the solution, but healthcare providers and patients need additional resources.4 During the pandemic, many children’s hospitals increased their telemedicine capacity exponentially. Further scaling up should consider the benefits of increased accessibility and safety while being mindful of the limits around quality, confidentiality, and the potential to exacerbate existing health inequities.5 Keeping children healthy means keeping communities healthy. A hallmark of the COVID-19 pandemic was the need to quickly increase the number of adult ICU beds. Children’s hospitals contributed in a variety of ways, including moving staff temporarily to adult ICUs, consolidating paediatric care, and even caring for adults in paediatric units.6 Consolidating paediatric care in one or two locations can increase space for adult care but can also reduce the need for children and families to visit potentially high-risk areas, such as waiting rooms of adult emergency departments. Such an approach sends a message to the community that children’s hospitals are safe and ready to care for patients. Looking forward, children’s hospitals should work with public health agencies to determine how they can best support public health needs. With the seasonal increase in respiratory illness, paediatric ICUs will probably find themselves at capacity. Ensuring a child’s right to high-quality health care will require having both professional expertise and sufficient resources available, such as ventilators or monitoring equipment. This might pose a challenge, since the availability of paediatric-specific equipment is often scarce because of low volume needs. Rapid identification of COVID-19 positive cases will streamline treatment and help to conserve resources such as personal protective equipment. Digital health systems to help track and manage issues such as bed availability and critical care pathways are another way to address resource needs.7 Cross-border data sharing systems are also needed to pool data and rapidly understand the clinical and epidemiological features of outbreaks.

 

 

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Uma entrevista corajosa : O mal de que se queixa o Director do IPO é o mesmo de todo o SNS e em particular do Centro Hospitalar de Lisboa Central e por tabela do Hospital Pediatrico de Lisboa







SNS está a transformar-se no “SNS inglês” e “debaixo do nosso nariz”
João Oliveira O presidente do IPO de Lisboa é um acérrimo defensor do Serviço Nacional de Saúde. “Ainda bem que existe porque tratar de uma pessoa não é coisa que se faça em lojas separadas”, diz
O Serviço Nacional de Saúde (SNS) inglês “tem o nome, mas o mecanismo em si, a prestação, já não é pública, uma enorme parte é privada”. Hoje é “uma grande central de compras”, enfatiza o presidente do conselho de admnistração do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, João Oliveira, que alerta para que já começa a acontecer o mesmo em Portugal.  O tratamento do cancro mudou muito nos últimos anos? Mudou, mas a pedra angular do tratamento dos tumores sólidos continua a ser a cirurgia. Actualmente, há uma série de tecnologias que permitem cirurgias mais conservadoras. Por exemplo, antes, nos tumores do recto, tinha que se tirar o ânus. A combinação da cirurgia com a quimioterapia e a radioterapia permitiu uma taxa de curas alta. De há 20 anos para cá, mudou tudo com a cirurgia e com a combinação da cirurgia com os outros meios. Estes são grandes avanços de que se fala pouco. Só se fala de medicamentos… Por que é que isso acontece? Por causa do lobby da indústria farmacêutica? Temos uma focalização nos medicamentos e é certo que melhoraram muito a vida das pessoas. No cancro, as leucemias agudas a partir dos anos 60 passaram a tratar-se e, nas crianças, a taxa de cura é muito alta. Isso aconteceu graças aos medicamentos. A leucemia mielóide, quando comecei, era uma doença crónica e 90 a 95% das pessoas estavam mortas cinco anos depois. Mais tarde, veio o interferão, as transplantações de medula, e depois o imatinib, que foi inventado para bloquear a
alteração genética que está por trás da doença. Agora, à boleia desta invenção e deste resultado, estão a ir muitos outros tratamentos que não têm o mesmo tipo de eÆcácia.  Tem insistido na ideia de que os profissionais de saúde não devem exacerbar a esperança dos doentes. Não há só ciência. É sempre preciso um módico de esperança, mas é responsabilidade dos proÆssionais, até moral, não iludir as pessoas para além do que é razoável. Os médicos sentem a pressão da indústria farmacêutica? Sim. A promoção em torno da grande esperança em relação aos medicamentos é uma pressão muito forte e há diÆculdade de distinguir os medicamentos que são verdadeiramente um progresso dos que são mais do mesmo. Um estudo recente concluiu que entre 68 fármacos aprovados pela EMA [Agência Europeia de Medicamentos, sigla em inglês], entre 2009 e 2013, só 35 demonstraram contribuir para um significativo aumento da qualidade de vida e sobrevida dos doentes. A EMA não filtra o que não é inovação? A EMA é uma entidade industrial. Faz farmacovigilância e o balanço de risco/benefício dos medicamentos. Diz se têm eÆcácia e segurança. Mas é mais estrita com a segurança e por vezes mais permissiva com a eÆcácia. Portugal é dos países mais permissivos. Há poucos medicamentos, como o da hepatite C, que curam? No cancro, há o imatinib [para leucemia mielóide]. Mas a maior parte do tratamento do cancro resulta de um conjunto de intervenções. O medicamento não é uma pedra Ælosofal que muda tudo, como aconteceu com a penicilina. No medicamento para a hepatite C, o que aconteceu é
medicamento que custa cerca de dois milhões de euros] curava a doença. Não leram o que está escrito [nos estudos]. Vá ver em quantos países da Europa, mesmo dos ricos, este medicamento foi comparticipado pelo Estado.  A saúde não é um mercado como os outros, e uma das características que fazem com que isto não seja um mercado é a falta de transparência. Quanto gasta o IPO de Lisboa com fármacos? Dizia no ano passado que era um milhão de euros por semana. Esse valor já está desactualizado. Estamos a gastar mais de cinco milhões de euros por mês, o que dá mais de um milhão, perto de 1,2 milhões de euros por semana. 
Este crescimento da despesa é sustentável? Em 28 Dezembro, vai aparecer dinheiro para pagar às companhias no dia 31 de Dezembro. A saúde está suborçamentada, mas não sei se está subÆnanciada.  A troika não disse para não gastarmos dinheiro, quer saber se conseguimos honrar os nossos empréstimos. E as exigências dos credores são: pagar as dívidas. Com dívidas, ficamos mais à mercê... Se a saúde está suborçamentada, isto predispõe a todos os vieses. Como os orçamentos são em grande parte irrealistas, não há disciplina orçamental. Mas pergunto: a suborçamentação não estará a dar sobreÆnanciamento? Porque no Æm
Entrevista Alexandra Campos
notável, mas não temos nada parecido no cancro para tanta gente. As doenças infecciosas são diferentes. [Aí lida-se] com agentes externos. O cancro é com células nossas. Não é a mesma coisa que dar cabo de um vírus ou bactéria. Não é de tratamento único, é uma estratégia, um conjunto. Justifica-se que os preços dos medicamentos sejam sigilosos, quando a sua introdução nos países está a ser negociada? Repare no que aconteceu recentemente com aquela criança, Matilde, que tem atroÆa muscular espinhal. Eu acredito que aqui funcionou tudo: a crença nos medicamentos, a emoção pela criança, mas houve outra coisa: as pessoas acreditaram que [o
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  Meio: Imprensa
  País: Portugal
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  Âmbito: Informação Geral
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acabamos por receber dinheiro para gastos que teriam sido contidos se tivéssemos disciplina orçamental . O ministro das Finanças tem preocupações com o déÆce, como acontece por toda a Europa, limita o mais possível a despesa pública. Contudo, na administração dos hospitais,  a grande diÆculdade é a autorização para contratar novos funcionários. É mais difícil contratar um funcionário para o integrar no hospital do que contratar uma prestação de serviços, fazer outsourcing. Não tem sido fácil obter autorizações das Finanças para a contratação de novo pessoal.  Continua a haver transferência de doentes do privado para o público a meio do tratamento?
“Se os médicos não se põem a pau, qualquer dia desaparecem, qualquer robô faz melhor”, avisa o presidente do IPO de Lisboa. As listas de espera aumentaram muito no IPO de Lisboa? Em 2018, em mais de seis mil operações por ano, aumentou imenso o número de cirurgias feitas no âmbito do SIGIC [Sistema Integrado de Gestão de Inscritos em Cirurgia, que obriga a que, quando se ultrapassa o prazo-limite, o doente receba um vale para fazer a interevenção noutro sítio], mas só 38 doentes quiseram ser operados fora do IPO. Os doentes preferem ser operados no IPO, mesmo que tenham que esperar um bocado mais. A percentagem dos que são tratados fora do tempo máximo de resposta aumentou por via administrativa em 2018 [porque o prazo máximo foi reduzido pela tutela], mas a realidade da espera não se modiÆcou substancialmente. Agora, toda a gente quer que tudo seja mais rápido. Mas, para conseguir-se isso, há reorganizações a fazer. Há muitos médicos a acumular público e privado? Sim, e isso é mau. No IPO, temos um bom núcleo de médicos em dedicação exclusiva, mas gostaríamos que houvesse uma parte mais substancial de médicos e enfermeiros em dedicação exclusiva. A nossa diÆculdade é a de Æxar os proÆssionais que são facilmente tentados por pouco mais [dinheiro] no privado. Como olha para o  que está a acontecer com a ADSE? Não vale a pena falar do elefante que é a ADSE. A ADSE é paga pelos funcionários públicos, mas o seu principal problema actual é não ter, também porque houve falta de investimento em recursos humanos, capacidade de analisar o que paga. A ADSE não tem feito uma avaliação capaz daquilo que
“Só 38 doentes, em mais de seis mil, quiseram ser operados fora do IPO em 2018”
facturam os grandes grupos privados. Tanto quanto percebo, a ADSE tem muitas diÆculdades em analisar a facturação no sentido crítico, clínico, algo que no SNS, apesar de tudo, se consegue fazer. A ADSE é um grande Ænanciador dos hospitais privados, mercê de um grande desequilíbrio informativo, porque visivelmente não tem o aparelho de validação dos consumos que precisava de ter. E não é um puro seguro de saúde, não tem limites de idade, de prestações. Para ser sustentável, não pode pagar acriticamente. Mas todos temos que ter formas de gestão que sejam adaptadas aos constrangimentos que existem actualmente e que continuem a preservar o serviço público, diminuindo a necessidade de recorrer aos privados. Acredita que o cancro vai ter cura dentro de alguns anos? Não. O cancro é nosso… O que pensa da utilização das palavras guerra e guerreiros quando se fala dos doentes oncológicos nos media? Acho que é injusto usar essa metáfora bélica. Pense na angústia da pessoa que não se está a safar, por contraste com os guerreiros.  Com o cancro, a vida está alterada para sempre, não há uma maneira boa de se passar por isto. Mas podemos fazer melhor se não complicarmos a vida às pessoas, se lhes explicarmos as coisas. O principal problema dos doentes é não saberem quando vão ser tratados. Também temos que ser dinâmicos na sua avaliação. Temos que ser médicos, coisa que é cada vez mais difícil. Somos cada vez mais intermediários de tecnologias e a parte relacional perde-se. Se os médicos se não se põem a pau, qualquer dia desaparecem, qualquer robô faz melhor.
Veja o que aconteceu ao SNS inglês: já foi!  É sobretudo uma grande central  de compras 
Temo que estas diÄculdades na contratação de recursos humanos redundem  num aumento  de privatização  do que se faz 
A ADSE é um grande Änanciador dos hospitais privados 
Se os médicos não se põem a pau, qualquer dia desaparecem, qualquer robô  faz melhor 
[No caso do bebé Matilde] as pessoas acreditaram que  [o medicamento de dois milhões  de euros] curava  a doença 
Doentes oncológicos guerreiros? É injusto usar essa metáfora. Pense  na angústia  da pessoa que  não se está a safar
Isto complica a tomada a cargo destes doentes porque o tratamento é uma trajectória que tem que ter um princípio, meio e Æm. Uma das boas características do SNS é a complementaridade. Os tratamentos não são gestos separados, uma PET aqui, uma TAC acolá. Ainda bem que existe um SNS porque tratar de uma pessoa não é coisa que se faça em lojas separadas.  É um defensor acérrimo do SNS. Ainda não vi outra maneira melhor de tratar as pessoas, esta coerência interna do serviço. Veja o que aconteceu ao SNS inglês: já foi. Neste momento, o SNS inglês é sobretudo uma grande central de compras, de outsourcing, e por lei. Os ingleses decretaram que qualquer prestador privado pode prestar serviços em igualdade com o público. Isso pode acontecer em Portugal? Não pode, isto é o que está a acontecer. Não estou a dizer que o Ministério das Finanças faz de propósito, mas temo que estas diÆculdades na contratação  redundem num aumento de privatização. A questão essencial é o risco de que o SNS sirva apenas de plataforma de passagem de dinheiro público para os privados. Na Inglaterra, o SNS tem o nome, mas o mecanismo em si, a prestação, já não é pública, uma enorme parte é privada. É importante que a Lei de Bases da Saúde tenha Ærmado o primado do público em relação ao privado, mas isso não impede esta transposição para o fornecimento externo que está a acontecer debaixo do nosso nariz. Receio que muita da prestação pública possa correr o risco de se privatizar, por ter de se comprar fora.  O SNS está pior ou melhor? Acho que está melhor. É muito fácil atacar o SNS. Mesmo a esquerda faz isso, quando acha que o está a defender e reclama porque agora, em vez de um centro de saúde fechar às 8h00, fecha às 6h00. Que isso seja o essencial da acção na Assembleia da República, que se olhe para a árvore e não para a Çoresta é falta de visão política. 
Leia a entrevista na íntegra em  www.publico.pt
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